Técnico — Plano de Rigging
Um içamento é tratado como crítico quando a margem de erro fica pequena: carga acima de 75% da tabela, dois guindastes trabalhando juntos, rede elétrica por perto ou pessoas no cesto. Nesses casos, o plano de rigging precisa mostrar quatro cálculos — utilização do guindaste, tração nas eslingas, pressão no solo e distância da rede. Veja cada um com um exemplo numérico.
Quando o Içamento É Crítico
A legislação brasileira não traz uma definição única de içamento crítico. Os critérios usados por grandes contratantes e por referências como a ASME P30.1 convergem nestes pontos:
- Carga bruta igual ou acima de 75% da capacidade da tabela no raio de trabalho
- Dois ou mais guindastes na mesma carga (tandem)
- Carga de forma irregular ou centro de gravidade indefinido
- Proximidade de rede elétrica ou subestação
- Içamento sobre processo em operação, sobre pessoas ou em cota negativa
- Elevação de pessoas em cesto — limitada por lei a 50% da capacidade nominal (NR-12, Anexo XII)
1. Percentual de Utilização
O erro mais comum é comparar só o peso da peça com a capacidade do guindaste. O que entra na conta é a carga bruta: carga + moitão + acessórios (e o cabo, quando a tabela do fabricante pede). E a capacidade é a da tabela naquele raio e naquela configuração — não a capacidade nominal que dá nome ao guindaste.
Exemplo: peça de 8,0 t + moitão de 0,35 t + acessórios de 0,15 t = 8,5 t de carga bruta. No raio de 12 m, a tabela do guindaste permite 11,0 t. Utilização = 8,5 ÷ 11,0 = 77%. Um guindaste “de 50 toneladas” fazendo um içamento de 8 t — e mesmo assim, é içamento crítico.
2. Tração nas Eslingas Conforme o Ângulo
Quanto mais aberto o ângulo entre as pernas, maior a tração em cada uma. A fórmula, com o ângulo medido em relação à horizontal:
Tração por perna = Peso ÷ (nº de pernas × seno do ângulo)
- A 60°: cada perna recebe o peso dividido pelas pernas × 1,155
- A 45°: × 1,414
- A 30°: × 2,0 — o dobro da carga por perna
- Abaixo de 30°: não recomendado
Exemplo: a peça de 8,0 t içada com eslinga de duas pernas a 60° gera 8,0 ÷ (2 × 0,866) = 4,62 t por perna. Duas eslingas de 4 t “somam 8 t”, mas não servem: cada uma estaria acima da sua carga de trabalho.
Com carga rígida, é praticamente impossível garantir que as quatro pernas trabalhem por igual — duas acabam carregando quase tudo. A prática conservadora é dimensionar considerando apenas duas pernas. Com centro de gravidade deslocado, a perna mais próxima do CG recebe mais carga e precisa ser calculada separadamente.
3. Pressão no Solo Sob a Patola
A reação em cada patola não é o peso total dividido por quatro. Ela depende da posição da lança durante o giro e pode concentrar a maior parte do peso do guindaste mais a carga em uma única patola. O valor correto sai do software ou da tabela de reações do fabricante.
Área de calço necessária = Reação máxima na patola ÷ Pressão admissível do solo
Exemplo ilustrativo: reação máxima de 18 t informada pelo fabricante, sobre solo com pressão admissível de 20 t/m². Área necessária = 18 ÷ 20 = 0,9 m² — um calço de pelo menos 1,0 m × 1,0 m. Sem calço, a sapata da patola (em torno de 0,5 m × 0,5 m) aplicaria cerca de 72 t/m² no mesmo solo. A pressão admissível deve vir de dado real do terreno — sondagem ou laudo geotécnico — nunca de suposição.
4. Distância de Rede Elétrica
O Anexo II da NR-10 define, para cada faixa de tensão, o raio da zona de risco e da zona controlada. O plano precisa mostrar, no croqui em planta e elevação, que nenhuma parte do guindaste, do cabo ou da carga entra nessas zonas em todo o percurso — incluindo o balanço da carga e a flecha da lança. Quando não é possível manter a distância, a rede precisa ser desenergizada ou o içamento segue procedimento específico.
Vento: o Quinto Limite
Todo plano precisa declarar o vento máximo de operação, definido pelo fabricante do guindaste e ajustado para cargas com grande área exposta, como painéis, telhas e estruturas. Para cestos com pessoas, a NR-12 exige alarme a partir de 35 km/h. O anemômetro é obrigatório em guindastes na construção civil (NR-18, item 18.10.1.26).
Veja também quando o plano de rigging é obrigatório e as normas que ele precisa atender.
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